terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O espelho – João Guimarães Rosa

O espelho – João Guimarães Rosa

Começar o ano com um conto do grande Guimarães Rosa:
Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de raciocínios e intuições. Tomou-me tempo, desânimos, esforços. Dela me prezo, sem vangloriar-me. Surpreendo-me, porém, um tanto à-parte de todos, penetrando conhecimento que os outros ainda ignoram. O senhor, por exemplo, que sabe e estuda, suponho nem tenha idéia do que seja na verdade — um espelho? Demais, decerto, das noções de física, com que se familiarizou, as leis da óptica. Reporto-me ao transcendente. Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.
Fixemo-nos no concreto. O espelho, são muitos, captando-lhe as feições; todos refletem-lhe o rosto, e o senhor crê-se com aspecto próprio e praticamente imudado, do qual lhe dão imagem fiel. Mas — que espelho? Há-os «bons» e «maus», os que favorecem e os que detraem; e os que são apenas honestos, pois não. E onde situar o nível e ponto dessa honestidade ou fidedignidade? Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível? O senhor dirá: as fotografias o comprovam. Respondo: que, além de prevalecerem para as lentes das máquinas objeções análogas, seus resultados apóiam antes que desmentem a minha tese, tanto revelam superporem-se aos dados iconográficos os índices do misterioso. Ainda que tirados de imediato um após outro, os retratos sempre serão entre si muito diferentes. Se nunca atentou nisso, é porque vivemos, de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes. E as máscaras, moldadas nos rostos? Valem, grosso modo, para o falquejo das formas, não para o explodir da expressão, o dinamismo fisionômico. Não se esqueça, é de fenômenos sutis que estamos tratando.
Resta-lhe argumento: qualquer pessoa pode, a um tempo, ver o rosto de outra e sua reflexão no espelho. Sem sofisma, refuto-o. O experimento, por sinal ainda não realizado com rigor, careceria de valor científico, em vista das irredutíveis deformações, de ordem psicológica. Tente, aliás, fazê-lo, e terá notáveis surpresas. Além de que a simultaneidade torna-se impossível, no fluir de valores instantâneos. Ah, o tempo é o mágico de todas as traições… E os próprios olhos, de cada um de nós, padecem viciação de origem, defeitos com que cresceram e a que se afizeram, mais e mais. Por começo, a criancinha vê os objetos invertidos, daí seu desajeitado tactear; só a pouco e pouco é que consegue retificar, sobre a postura dos volumes externos, uma precária visão. Subsistem, porém, outras pechas, e mais graves. Os olhos, por enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de mim. Ah, meu amigo, a espécie humana peleja para impor ao latejante mundo um pouco de rotina e lógica, mas algo ou alguém de tudo faz frincha para rir-se da gente… E então?
Note que meus reparos limitam-se ao capítulo dos espelhos planos, de uso comum. E os demais — côncavos, convexos, parabólicos — além da possibilidade de outros, não descobertos, apenas, ainda? Um espelho, por exemplo, tetra ou quadridimensional? Parece-me não absurda, a hipótese. Matemáticos especializados, depois de mental adestramento, vieram a construir objetos a quatro dimensões, para isso utilizando pequenos cubos, de várias cores, como esses com que os meninos brincam. Duvida? Vejo que começa a descontar um pouco de sua inicial desconfiança, quanto ao meu são juízo. Fiquemos, porém, no terra-a-terra. Rimo-nos, nas barracas de diversões, daqueles caricatos espelhos, que nos reduzem a mostrengos, esticados ou globosos. Mas, se só usamos os planos — e nas curvas de um bule tem-se sofrível espelho convexo, e numa colher brunida um côncavo razoável — deve-se a que primeiro a humanidade mirou-se nas superfícies de água quieta, lagoas, lameiros, fontes, delas aprendendo a fazer tais utensílios de metal ou cristal. Tirésias, contudo, já havia predito ao belo Narciso que ele viveria apenas enquanto a si mesmo não se visse… Sim, são para se ter medo, os espelhos.
Temi-os, desde menino, por instintiva suspeita. Também os animais negam-se a encará-los, salvo as críveis excepções. Sou do interior, o senhor também; na nossa terra, diz-se que nunca se deve olhar em espelho às horas mortas da noite, estando-se sozinho. Porque, neles, às vezes, em lugar de nossa imagem, assombra-nos alguma outra e medonha visão. Sou, porém, positivo, um racional, piso o chão a pés e patas. Satisfazer-me com fantásticas não-explicações? — jamais. Que amedrontadora visão seria então aquela? Quem o Monstro?
Sendo talvez meu medo a revivescência de impressões atávicas? O espelho inspirava receio supersticioso aos primitivos, aqueles povos com a idéia de que o reflexo de uma pessoa fosse a alma. Via de regra, sabe-o o senhor, é a superstição fecundo ponto de partida para a pesquisa. A alma do espelho — anote-a — esplêndida metáfora. Outros, aliás, identificavam a alma com a sombra do corpo; e não lhe terá escapado a polarização: luz — treva. Não se costumava tapar os espelhos, ou voltá-los contra a parede, quando morria alguém da casa? Se, além de os utilizarem nos manejos da magia, imitativa ou simpática, videntes serviam-se deles, como da bola de cristal, vislumbrando em seu campo esboços de futuros fatos, não será porque, através dos espelhos, parece que o tempo muda de direção e de velocidade? Alongo-me, porém. Contava-lhe…
— Foi num lavatório de edifício público, por acaso. Eu era moço, comigo contente, vaidoso. Descuidado, avistei… Explico-lhe: dois espelhos — um de parede, o outro de porta lateral, aberta em ângulo propício — faziam jogo. E o que enxerguei, por instante, foi uma figura, perfil humano, desagradável ao derradeiro grau, repulsivo senão hediondo. Deu-me náusea, aquele homem, causava-me ódio e susto, eriçamento, espavor. E era — logo descobri… era eu, mesmo! O senhor acha que eu algum dia ia esquecer essa revelação?
Desde aí, comecei a procurar-me — ao eu por detrás de mim — à tona dos espelhos, em sua lisa, funda lâmina, em seu lume frio. Isso, que se saiba, antes ninguém tentara. Quem se olha em espelho, o faz partindo de preconceito afetivo, de um mais ou menos falaz pressuposto: ninguém se acha na verdade feio: quando muito, em certos momentos, desgostamo-nos por provisoriamente discrepantes de um ideal estético já aceito. Sou claro? O que se busca, então, é verificar, acertar, trabalhar um modelo subjetivo, preexistente; enfim, ampliar o ilusório, mediante sucessivas novas capas de ilusão. Eu, porém, era um perquiridor imparcial, neutro absolutamente. O caçador de meu próprio aspecto formal, movido por curiosidade, quando não impessoal, desinteressada; para não dizer o urgir científico. Levei meses.
Sim, instrutivos. Operava com toda a sorte de astúcias: o rapidíssimo relance, os golpes de esguelha, alonga obliqüidade apurada, as contra-surpresas, a finta de pálpebras, a tocaia com a luz de-repente acesa, osângulos variados incessantemente. Sobretudo, uma inembotável paciência. Mirava-me, também, em marcadosmomentos — de ira, medo, orgulho abatido ou dilatado, extrema alegria ou tristeza. Sobreabriam-se-meenigmas. Se, por exemplo, em estado de ódio, o senhor enfrenta objetivamente a sua imagem, o ódio reflui erecrudesce, em tremendas multiplicações: e o senhor vê, então, que, de fato, só se odeia é a si mesmo. Olhoscontra os olhos. Soube-o: os olhos da gente não têm fim. Só eles paravam imutáveis, no centro do segredo. Se é que de mim não zombassem, para lá de uma máscara. Porque, o resto, o rosto, mudava permanentemente. O senhor, como os demais, não vê que seu rosto é apenas um movimento deceptivo, constante. Não vê, porque mal advertido, avezado; diria eu: ainda adormecido, sem desenvolver sequer as mais necessárias novas percepções. Não vê, como também não se vêem, no comum, os movimentos translativo e rotatório deste planeta Terra, sobre que os seus e os meus pés assentam. Se quiser, não me desculpe; mas o senhor me compreende.
Sendo assim, necessitava eu de transverberar o embuço, a travisagem daquela máscara, a fito de devassar o núcleo dessa nebulosa — a minha vera forma. Tinha de haver um jeito. Meditei-o. Assistiram-me seguras inspirações.
Concluí que, interpenetrando-se no disfarce do rosto externo diversas componentes, meu problema seria o de submetê-las a um bloqueio “visual” ou anulamento perceptivo, a suspensão de uma por uma, desde as mais rudimentares, grosseiras, ou de inferior significado. Tomei o elemento animal, para começo.
Parecer-se cada um de nós com determinado bicho, relembrar seu facies, é fato. Constato-o, apenas; longe de mim puxar à bimbalha temas de metempsicose ou teorias biogenéticas. De um mestre, aliás, na ciência de Lavater, eu me inteirara no assunto. Que acha? Com caras e cabeças ovinas ou eqüinas, por exemplo, bastalhe relancear a multidão ou atentar nos conhecidos, para reconhecer que os há, muitos. Meu sósia inferior na escala era, porém — a onça. Confirmei-me disso. E, então, eu teria que, após dissociá-los meticulosamente, aprender a não ver, no espelho, os traços que em mim recordavam o grande felino. Atirei-me a tanto.
Releve-me não detalhar o método ou métodos de que me vali, e que revezavam a mais buscante análise e o estrênuo vigor de abstração. Mesmo as etapas preparatórias dariam para aterrar a quem menos pronto ao árduo. Como todo homem culto, o senhor não desconhece a Ioga, e já a terá praticado, quando não seja, em suas mais elementares técnicas. E, os “exercícios espirituais” dos jesuítas, sei de filósofos e pensadores incréus que os cultivam, para aprofundarem-se na capacidade de concentração, de par com a imaginação criadora… Enfim, não lhe oculto haver recorrido a meios um tanto empíricos: gradações de luzes, lâmpadas coloridas, pomadas fosforescentes na obscuridade. Só a uma expediência me recusei, por medíocre senão falseadora, a de empregar outras substâncias no aço e estanhagem dos espelhos. Mas, era principalmente no modus de focar, na visão parcialmente alheada, que eu tinha de agilitar-me: olhar não-vendo.. Sem ver o que, em meu rosto, não passava de reliquat bestial. Ia-o conseguindo?
Saiba que eu perseguia uma realidade experimental, não uma hipótese imaginária. E digo-lhe que nessa operação fazia reais progressos. Pouco a pouco, no campo-de-vista do espelho, minha figura reproduzia-se-me lacunar, com atenuadas, quase apagadas de todo, aquelas partes excrescentes. Prossegui. Já aí, porém, decidindome a tratar simultaneamente as outras componentes, contingentes e ilusivas. Assim, o elemento hereditário — as parecenças com os pais e avós — que são também, nos nossos rostos, um lastro evolutivo residual. Ah, meu amigo, nem no ovo o pinto está intacto. E, em seguida, o que se deveria ao contágio das paixões, manifestadas ou latentes, o que ressaltava das desordenadas pressões psicológicas transitórias. E, ainda, o que, em nossas caras, materializa idéias e sugestões de outrem; e os efêmeros interesses, sem seqüência nem antecedência, sem conexões nem fundura. Careceríamos de dias, para explicar-lhe. Prefiro que tome minhas afirmações por seu valor nominal.
À medida que trabalhava com maior mestria, no excluir, abstrair e abstrar, meu esquema perspectivo clivava-se, em forma meândrica, a modos de couve-flor ou bucho de boi, e em mosaicos, e francamente cavernoso, como uma esponja. E escurecia-se. Por aí, não obstante os cuidados com a saúde, comecei a sofrer dores de cabeça. Será que me acovardei, sem menos? Perdoe-me, o senhor, o constrangimento, ao ter de mudar de tom para confidência tão humana, em nota de fraqueza inesperada e indigna. Lembre-se, porém, de Terêncio. Sim, os antigos; acudiu-me que representavam justamente com um espelho, rodeado de uma serpente, a Prudência, como divindade alegórica. De golpe, abandonei a investigação. Deixei, mesmo, por meses, de me olhar em qualquer espelho.
Mas, com o comum correr quotidiano, a gente se aquieta, esquece-se de muito. O tempo, em longo trecho, é sempre tranqüilo. E pode ser, não menos, que encoberta curiosidade me picasse. Um dia… Desculpeme, não viso a efeitos de ficcionista, inflectindo de propósito, em agudo, as situações. Simplesmente lhe digo que me olhei num espelho e não me vi. Não vi nada. Só o campo, liso, às vácuas, aberto como o sol, água limpíssima, à dispersão da luz, tapadamente tudo. Eu não tinha formas, rosto? Apalpei-me, em muito. Mas, o invisto. O ficto. O sem evidência física. Eu era — o transparente contemplador?… Tirei-me. Aturdi-me, a ponto de me deixar cair numa poltrona.
Com que, então, durante aqueles meses de repouso, a faculdade, antes buscada, por si em mim se exercitara! Para sempre? Voltei a querer encarar-me. Nada. E, o que tomadamente me estarreceu: eu não via os meus olhos. No brilhante e polido nada, não se me espelhavam nem eles!
Tanto dito que, partindo para uma figura gradualmente simplificada, despojara-me, ao termo, até à total desfigura. E a terrível conclusão: não haveria em mim uma existência central, pessoal, autônoma? Seria eu um… desalmado? Então, o que se me fingia de um suposto eu, não era mais que, sobre a persistência do animal, um pouco de herança, de soltos instintos, energia passional estranha, um entrecruzar-se de influências, e tudo o mais que na impermanência se indefine? Diziam-me isso os raios luminosos e a face vazia do espelho — com rigorosa infidelidade. E, seria assim, com todos? Seríamos não muito mais que as crianças — o espírito do viver não passando de ímpetos espasmódicos, relampejados entre miragens: a esperança e a memória.
Mas, o senhor estará achando que desvario e desoriento-me, confundindo o físico, o hiperfísico e o transfísico, fora do menor equilíbrio de raciocínio ou alinhamento lógico — na conta agora caio. Estará pensando que, do que eu disse, nada se acerta, nada prova nada. Mesmo que tudo fosse verdade, não seria mais que reles obsessão auto-sugestiva, e o despropósito de pretender que psiquismo ou alma se retratassem em espelho…
Dou-lhe razão. Há, porém, que sou um mau contador, precipitando-me às ilações antes dos fatos, e, pois: pondo os bois atrás do carro e os chifres depois dos bois. Releve-me. E deixe que o final de meu capítulo traga luzes ao até agora aventado, canhestra e antecipadamente.
São sucessos muito de ordem íntima, de caráter assaz esquisito. Narro-os, sob palavra, sob segredo. Pejo-me. Tenho de demais resumi-los.
Pois foi que, mais tarde, anos, ao fim de uma ocasião de sofrimentos grandes, de novo me defrontei — não rosto a rosto. O espelho mostrou-me. Ouça. Por um certo tempo, nada enxerguei. Só então, só depois: o tênue começo de um quanto como uma luz, que se nublava, aos poucos tentando-se em débil cintilação, radiância. Seu mínimo ondear comovia-me, ou já estaria contido em minha emoção? Que luzinha, aquela, que de mim se emitia, para deter-se acolá, refletida, surpresa? Se quiser, infira o senhor mesmo.
São coisas que se não devem entrever; pelo menos, além de um tanto. São outras coisas, conforme pude distinguir, muito mais tarde — por último — num espelho. Por aí, perdoe-me o detalhe, eu já amava — já aprendendo, isto seja, a conformidade e a alegria. E… Sim, vi, a mim mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui. Mas o ainda-nem-rosto — quase delineado, apenas — mal emergindo, qual uma flor pelágica, de nascimento abissal… E era não mais que: rostinho de menino, de menosque-menino, só. Só. Será que o senhor nunca compreenderá?
Devia ou não devia contar-lhe, por motivos de talvez. Do que digo, descubro, deduzo. Será, se? Apalpo o evidente? Tresbusco. Será este nosso desengonço e mundo o plano — intersecção de planos — onde se completam de fazer as almas?
Se sim, a “vida” consiste em experiência extrema e séria; sua técnica — ou pelo menos parte — exigindo o consciente alijamento, o despojamento, de tudo o que obstrui o crescer da alma, o que a atulha e soterra? Depois, o “salto mortale”… — digo-o, do jeito, não porque os acrobatas italianos o aviventaram, mas por precisarem de toque e timbre novos as comuns expressões, amortecidas… E o julgamento-problema, podendo sobrevir com a simples pergunta: — ”Você chegou a existir?”
Sim? Mas, então, está irremediavelmente destruída a concepção de vivermos em agradável acaso, sem razão nenhuma, num vale de bobagens? Disse. Se me permite, espero, agora, sua opinião, mesma, do senhor, sobre tanto assunto. Solicito os reparos que se digne dar-me, a mim, servo do senhor, recente amigo, mas companheiro no amor da ciência, de seus transviados acertos e de seus esbarros titubeados. Sim?
– João Guimarães Rosa, no livro “Primeiras estórias”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
Mais sobre João Guimarães Rosa:
João Guimarães Rosa – o demiurgo do sertão

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Pós Golpe - Que acontecerá com os que foram socialmente incluídos?

Pós Golpe - Que acontecerá com os que foram socialmente incluídos?


Em Leitura a um capítulo da excelente série de artigos O Xadrez do Golpe, escrita pelo Luis Nassif, o autor faz uma pertinente indagação ao final do capítulo:

"2.     Ascensão social

O que ocorrerá com essa multidão que ascendeu socialmente, que conquistou comida na mesa e filhos nas universidades? Aceitará passivamente o recuo para as profundezas da miséria? É evidente que não, o que acarretará distúrbios populares cada vez mais intensos."

Pertinente tal proposição. É notório a grande ascensão social nos anos seguintes à vigência da Constituição de 1988, aprofundada com os governos Lula e Dilma. De acordo com Nassif, uma das principais finalidades do Golpe foi justamente acabar com o Estado Social que a Constituição tentou implantar no país e que timidamente se consolidava.
Um grande contingente populacional foi minimamente incluído socialmente. De maneira massiva, várias famílias tiveram acesso à melhor alimentação, ao ensino formal (inclusive universitário) e principalmente ao consumo. Uma das principais políticas públicas dos governos petistas foi justamente consolidar um mercado consumidor interno distribuindo renda e facilitando o acesso ao crédito para a população, além de programas de popularização ao ensino, seja técnico (PRONATEC), seja universitário (PROUNI, ampliação do FIES e cotas).
Muitos críticos à esquerda dos governos petistas alegam que essa inclusão se deu de maneira despolitizada, sendo que tal crítica teve mais peso com o golpe, visto que os socialmente incluídos não defenderam a presidenta golpeada. Grande parte dos que diretamente foram beneficiados por tais medidas, simplesmente repetiam o discurso propalado pela classe dominante e pela mídia hegemônica. 
A ausência de politização da inclusão social foi realmente um fato. André Singer, ex porta voz do presidente Lula já falava do esgotamento desse modelo de inclusão social sem mudanças sociais estruturais e sem politização. Em longo estudo, fala que o modelo estaria esgotado com a crise econômica. Para ele, o Lulismo, seria um modelo de distribuição de renda conciliatória, sem retirar os lucros das classes dominantes. O autor faz longa análise em obra intitulada " Os Sentidos do Lulismo".

Porém, deve se recordar que antes do chamado Lulismo, e principalmente, antes da Constituição de 1988, no país existia uma grande legião de excluídos. Fome, trabalho semi escravo e escravo, desnutrição infantil, altos índices de analfabetismo. Grande parte da população ainda sentia na pele a herança de um país com três séculos e escravidão.
Nesse sentido, mesmo que de uma maneira massiva e despolitizada, ou mesmo conservadora, existe uma geração que foi incluída socialmente. Diferente de seus pais, tal geração sempre teve como citou Nassif, mesa farta e acesso às universidades. A geração anterior se sujeitava ao sub emprego, à alimentação precária, à inacessibilidade ao consumo.Ainda estavam presos à mentalidade escravocrata reinante no país. Se o patrão não cumpria todas as regras trabalhistas não tinha problema, visto que para grande parte dessa geração, o patrão já era bondoso de lhe conceder um emprego que gerava a parca subsistência.
Já os que nasceram sob a égide do Lulismo não sabem que é fome, que é sub emprego. De maneira bem ilustrativa, são as Jéssicas do filme "Que Horas Ela Volta?" , não mais aceitam dormir no quartinho apertado e claustrofóbico da empregada. Querem entrar na faculdade igual ao filho do patrão.  

Com o golpe e o desmonte das garantias estabelecidas pela CF/88, esse grande contingente de incluídos, não farão mais parte do pacto social. A emenda Constitucional que limitou os gastos fulmina com o espírito inclusivo da constituição, consequentemente deixando de proteger as classes socais mais vulneráveis. Grande parte da chamada nova classe média estará sujeita ao retorno para miséria. 
As gerações anteriores se sujeitaram a exclusão. Não sei se a geração atual se sujeitará. Mesmo que tal inclusão seja superficial e sem romper com certas estruturas. Ao mesmo tempo tal inclusão foi subversiva, pois trouxe várias pessoas para dentro da sociedade.
Dentro das universidades hoje em dia se encontram negros, indígenas, glbts, estudantes de periferia. Tais pessoas ingressaram em cargos públicos através de concursos e em empregos melhores que seus pais por terem ensino formal. Essas pessoas não serão mais contempladas com políticas públicas.

As medidas recessivas estabelecidas pós golpe levarão grande parte da população para  a margem da sociedade. Aí que mora o perigo. Como essa população irá reagir? Não creio que de maneira passiva. Talvez não de maneira politicamente politizada e com estratégias para mudar a situação. Mas talvez de maneira violenta e caótica, quando se virem alijados da sociedade, marginalizados e vistos como exército de mão de obra barata, não aceitarão tal papel. Aí o país poderá se transformar em um verdadeiro caos.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

PEC 55/241 Aprovada, Constituição Rasgada

Noticia o sítio do El país Brasil:

 PEC 55 é aprovada em segundo turno pelo Senado

Projeto que estabelece teto para os gastos públicos deverá agora ser sancionado por Temer.

Uma satisfação agridoce


 Uma satisfação agridoce


No crepúsculo do ano,
com as brumas de dezembro.
Voltando de um antro puritano
com o tempo me assombro.

Dei duas voltas ao mundo,
mas não sai do lugar.
Em meus pensamentos me afundo.
Com tantos verbos a conjugar.

As luzes do natal iluminam
o meu tédio histórico.
Comerciais me azucrinam.
Só me resta o meu traço amétrico.


sábado, 3 de dezembro de 2016

Pink Floyd – The Early Years 1967-72 Cre/ation (2016)

Pink Floyd – The Early Years 1967-72 Cre/ation (2016)

Compilação de sons inéditos, versões ao vivo e demos lançados pelo Pink Floyd entre 1967 e 1972. Material para fã, confere aí!


Faixas do álbum:

Disco 1
  1. Arnold Layne
  2. See Emily Play
  3. Matilda Mother (2010 Remix)
  4. Jugband Blues (2010 Remix)
  5. Paintbox
  6. Flaming (BBC Radio Session, 25 September 1967)
  7. In the Beechwoods (2010 Mix)
  8. Point Me at the Sky
  9. Careful with That Axe, Eugene (single ‘B’ Side version)
  10. Embryo (from Harvest Records sampler ‘Picnic’)
  11. US Radio ad for Ummagumma
  12. Grantchester Meadows (BBC Radio Session, 12 May 1969)
  13. Cymbaline (BBC Radio Session, 12 May 1969)
  14. Interstellar Overdrive (Live, Paradiso, Amsterdam, August 1969)
  15. Green Is the Colour (BBC Radio Session, 12 May 1969)
  16. Careful with That Axe, Eugene (BBC Radio Session, 12 May 1969)

Disco 2
  1. On the Highway (Zabriskie Point remix)
  2. Auto Scene Version 2 (Zabriskie Point remix)
  3. The Riot Scene (Zabriskie Point remix)
  4. Looking at Map (Zabriskie Point remix)
  5. Take Off (Zabriskie Point remix)
  6. Embryo (Alternative Version) (BBC Radio Session, 16 July 1970)
  7. Atom Heart Mother (Live Montreux, 21 Nov 1970) (Band only)
  8. Nothing, Part 14
  9. Childhood’s End (2016 remix)
  10. Free Four (2016 remix)
  11. Stay (2016 remix)

LINK – The Early Years 1967-72 Cre/ation (2016) – Disco 1
LINK – The Early Years 1967-72 Cre/ation (2016) – Disco 2


sábado, 26 de novembro de 2016

O Mito Fidel - Monstro ou Gênio

O Mito Fidel - Monstro ou Gênio


Os veículos de comunicação noticiam que Fidel Castro Ruz faleceu aos seus 90 anos. O portal uol noticiou:
O ex-presidente de Cuba Fidel Castro morreu aos 90 anos de idade, informou neste sábado (26) seu irmão, o atual mandatário do país, Raúl Castro, em um discurso transmitido pela televisão estatal.

O líder histórico da Revolução Cubana faleceu na noite de sexta-feira (25), às 22h29 (hora local), e seu corpo será cremado "atendendo sua vontade expressa", explicou Raúl Castro, visivelmente emocionado.

O presidente cubano afirmou que, nas próximas horas, será anunciado como acontecerá o funeral de Fidel Castro, que foi visto pela última vez no último dia 15, quando recebeu em sua residência o presidente do Vietnã, Tran Dai Quang

Não se pode negar a importância de Fidel Castro na história contemporânea. Líder de uma revolução no quintal dos EUA deu início a um regime em 1959 em Cuba e persiste até hoje sob liderança de seu irmão Raúl.
Tornou-se símbolo para muitos na esquerda, como alguém que desafiou o império, erradicou o analfabetismo e a fome em seu país. Por outro lado, principalmente entre os partidários da direita, mas também entre alguns dissidentes da esquerda cubana, Fidel se tornou um ditador sanguinário, assassino e perseguidor implacável dos inimigos do regime castrista.
Creio que as duas visões são simplistas e incompletas. É impossível julgar Fidel sem analisar o contesto histórico e humano de uma figura tão complexa como ele.
A Revolução Cubana destituiu do poder um governo ditatorial comandado por Fulgêncio Batista. De acordo com o site
 http://mortenahistoria.blogspot.com.br/ Fulgêncio foi: 
ex-presidente de Cuba de 1933 a 1940 e o presidente oficial do país de 1940 a 1944 e novamente de 1952 a 1959, como ditador. No primeiro período de seu governo entre 1933 e 1944, exerceu um governo forte. Batista consolidou o seu poder concentrando em si todas as nomeações para os cargos públicos. Durante o primeiro mandato de Batista, Cuba cooperou na Segunda Guerra Mundial com os aliados e declarou guerra ao Japão, Alemanha e Itália. Em março de 1952 regressou ao poder, novamente mediante um golpe militar. Passou então a governar como um verdadeiro ditador, contando com o reconhecimento diplomático e apoio militar dos Estados Unidos. Instaurou um regime autoritário, mandando prender os seus opositores e restringindo as liberdades através do controle da imprensa, da universidade e do congresso, usando métodos terroristas e fazendo fortuna para si e para seus aliados
Batista governou com mão de ferro transformando Cuba em um verdadeiro Cabaré dos EUA. Cuba antes da Revolução não era um país democrático. A pobreza, concentração de renda e desmandos de Fulgêncio oprimiam de maneira dura a ilha.
Nesse sentido a Revolução Cubana retirou do poder uma ditadura severa e que estava no poder apenas porque os EUA a apoiava e em troca Fulgêncio garantia todos os interesses do Grande Império.
Deve ser ressaltado que o regime castrista se deu em meio a Guerra Fria, onde as relações geopolíticas se encontravam extremamente polarizadas entre as duas potências então existentes, a Capitalista Estadunidense e os Socialistas Soviéticos.
Os EUA não aceitaram de maneira alguma que seu ditador fosse deposto. Fidel em um primeiro momento não se alinhou a União Soviética. Seus planos eram estabelecer um governo nacionalista, porém não socialista. Como os EUA fizeram várias retaliações diretas ao regime implantado com a Revolução, Fidel se viu acuado e sem alternativa.
Assim, depois de tentativa de invasão americana no episódio em que ficou conhecido com Invasão à Baia dos Porcos,
Conhecida em espanhol pelo nome de "La Batalla de Girón em Cuba", a Invasão da Baía dos Porcos ocorreu quando um contingente de exilados cubanos contrários a Fidel Castro, organizados pelos EUA, tentaram invadir a região sul de Cuba. Este episódio ocorreu no ano de 1961 e os exilados de Cuba foram apoiados pelo exército norteamericano e tiveram treinamento de agentes da CIA (Central Intelligence Agency). O objetivo era depor o governo socialista que tinha se instalado após a Revolução Cubana e derrubar Fidel Castro.( http://www.infoescola.com/historia/invasao-da-baia-dos-porcos/)
 e de um embargo comercial que durou até o Governo Obama, que impediu que todos os países aliados aos EUA (todos países capitalistas), o Governo Cubano se viu obrigado a se aliar aos soviéticos. Em uma época polarizada, tal comportamento aumentou ainda mais a animosidade entre os EUA e o Regime Cubano implantado por Fidel Castro.
 O Regime cubano passou por várias retaliações estadunidenses, porém conseguiu persistir. Fidel sofreu dezenas de tentativas de assassinato e várias sabatagens patrocinadas pelos EUA.

Fidel Castro esteve na mira dos Estados Unidos por décadas
De rifles de alta potência até comprimidos envenenados, passando por canetas tóxicas e a contratação de assassinos profissionais, estes foram alguns dos métodos que teriam sido utilizados pelos Estados Unidos na tentativa de se livrar de Fidel Castro, o líder cubano, incômodo à política americana de ampliação da influência que exercia na região.
Nas últimas décadas, as tentativas de assassinato de Fidel vêm sendo objeto de análises e especulações. O fato de que algumas dessas tentativas ainda permanecerem sem comprovação só colabora para fortalecer ainda mais a imagem heróica de Fidel, que como líder de uma pequena e frágil república caribenha, se opôs com ferrenha determinação ao vizinho gigante e todo poderoso do norte.
Um dos homens que teve a missão de cuidar da segurança de Fidel Castro durante anos, o ex-chefe do serviço secreto cubano Fabián Escalante, escreveu um livro no qual detalha 634 maneiras usadas pelos adversários de Fidel na esperança de assassiná-lo.
Dessa forma, cada vez mais paranoico o líder cubano se tornou. Para manter a soberania cubana frente a constante sabotagem yanke, o Comandante recrudesceu seu governo. Certamente cometeu exageros e abusos aos Direitos Humanos. Porém a Revolução Cubana conseguiu persistir e avançar, deixando de ser um mero quintal dos Estados Unidos.
Erradicou a pobreza, o analfabetismo, consolidou a medicina cubana como uma das mais avançadas do mundo e ainda enviou médicos cubanos para várias expedições humanitárias. Por outro lado, a liberdade de expressão da população sofreu restrições, direitos de locomoção também, liberdade política e outras liberdades civis não eram plenas da ilha.

Ao contrariar os interesses do Império Yanke, foi duramente perseguido e isolado. Para se manter de pé se aliou à União Soviética para conseguir apoio. Radicalizou a repressão e certamente cometeu abusos. Porém como julgá-lo?
Fidel é um símbolo. A direita radical é obcecada por Cuba. Parte da esquerda é encantada. Uma pequena ilha que se levantou contra os interesses imperiais dos EUA. Erradicou a pobreza, porém sua sociedade está longe de uma sociedade ideal. Pouca liberdade, restrições de ir e vir dos cidadãos, baixo desenvolvimento econômico. Cuba e as ações de Fidel não podem ser vista sem o contexto da história e da Guerra Fria.
Fidel, nem monstro nem Monstro nem Gênio, mas sim o líder possível para uma revolução cubana em meio à Guerra Fria, que marcou seu nome na história.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O golpe e o asco da família tradicional branca ao não convencional.

O golpe e o asco da família tradicional branca ao não convencional.

O país atravessa a maior crise institucional desde a redemocratização. Depois de um processo de impeachment considerado por renomados juristas como golpe, o país mergulha em uma crise política e econômica que turva o futuro do país. Mais de 54 milhões de votos foram desconsiderados e uma presidenta eleita foi deposta. A ascensão do país como uma das maiores economias, uma das maiores reservas energéticas do mundo, com vastas áreas agricutáveis e grande mercado consumidor interno, corre grande riscos. 

A nação encontra sobre um governo ilegítimo, com reformas recessivas que não foram legitimadas em eleições, cada dia mais sem rumo. Escolas estaduais ocupadas, greves de universidades federais, manifestações, o país encontra-se em grande ebulição. Mesmo que os grandes meios de comunicação não noticiem de maneira substancial os protestos contra o Governo Temer e suas medidas regressivas, o país está fervendo.
Antes de deposição da representante do executivo eleita democraticamente eleita, um grande descontentamento social da chamada classe média ajudou à consolidação do golpe. Mesmo tendo favorecido a classe médica com aumento de concursos públicos e valorização da carreira de servidores públicos, diminuído à níveis históricos o desemprego, aumentando o poder de consumo, o grau de insatisfação em relação ao governo da presidenta Dilma e seu Partido dos Trabalhadores atingiu altos patamares, chegando ao ponto de se tornar para alguns, verdadeiro ódio. Assim, muitos questionam o fato de que nos governos petistas, a classe média ter conseguido avanços em seus direitos e mesmo assim reprovar veemente tais governos.

É notório que a chamada grande mídia corporativa contribuiu para tal percepção. Cobertura distorcida e desonesta, certamente ajudou a gerar tal rejeição. Fora os erros de tais governos, seja de sua incapacidade de se comunicar com a classe média e mostrar os vários avanços, seu envolvimento com ações no mínimo nebulosas do ponto de vista ético, ou com as últimas decisões do governo Dilma de que, mesmo que momentaneamente, adotar medidas governamentais de cunho neoliberais, contrariando seu programa apresentado na eleição, dando a impressão de fraude eleitoral.
Porém, em que pese o fato de tais argumentos serem consideráveis, as forças que moveram o golpe, souberam utilizar certos sentimentos da classe média para legitimar a tomada do poder. Com intuito de acabar com o arremedo de Estado de Bem Estar Social brasileiro buscado pela Constituição de 88 e garantir ao capital especulativo a continuidade de seus lucros estratosféricos, além de tirar os recursos do pré-sal das mãos do Estado Brasileiro, os golpistas souberam usar o medo da classe média.
Os governos petistas governaram conciliando interesses do grande capital com distribuição de renda, fortalecimento do mercado interno, inclusão social e da soberania nacional. O grande capital lucrou como nunca, mas tais governos conseguiram incluir na sociedade um grande percentual antes marginalizados. Porém a crise de 2008 que atacou em cheio o primeiro mundo e em 2014 chegou ao Brasil, não possibilitava mais tal conciliação. O grande capital não queria arriscar mais com um governo progressista e tramou a apeada do poder da presidenta eleita.
Assim, viram que fomentar o ódio da classe média seria uma maneira de deslegitimar a governante eleita. 
A inclusão social dos últimos 13 anos mudou claramente a sociedade brasileira. Debates sobre Direitos Humanos, igualdade de gênero, combate o racismo, combate à homofobia, trouxeram polêmicas escanteadas para baixo do pano por muitos anos.
As universidades passaram a receber uma legião de excluídos. Os aeroportos passaram a ser frequentados por pessoas que nunca imaginaram ter acesso ao transporte aéreo. Shoppings Centers passaram a ficar lotados de pessoas da periferia (os famosos rolezinhos). O Presidente Lula certa vez disse, com sua habitual capacidade de perceber as coisas, que a madame ficava contrariada em saber que a "sua" doméstica usava o mesmo perfume que ela.
Em uma escola ocupada na periferia de Uberlândia/MG, tive a oportunidade de conversar com uma universitária do curso de psicologia que estava dando apoio à ocupação. A moça inicialmente me contou sobre como estava dando suporte emocional aos secundaristas. Moça de cor parda, obesa e com cabelo diferente do padrão da classe média tradicional, me contou um pouco de sua vida. A meu ver revela muito sobre o que passa o país. Cotista de escola pública, estudou em escola estadual de periferia por toda sua vida escolar. Lamentou que outros de seus colegas da escola pública não tiveram a mesma oportunidade de que ela, mas que o que para a geração de seus pais era impossível, para ela foi alcançado, ingressar em um curso disputado da Universidade Federal.

Relatou que quando adolescente, se descobriu atraída por meninos e meninas e que isso lhe causou um grande sentimento de culpa e angústia que por anos atormentou sua vida. Que vinda de uma família de tios pastores neo pentecostais, sofreu bastante discriminação familiar ao não se enquadrar no padrão de mulher submissa imposto pela sociedade conservadora. Também se sentiu discriminada pelo próprio movimento LGBT ao se assumir bissexual. Dentro da universidade, sempre se sentiu deslocada. Contou que luta para que os grupos de estudos da universidade possam fazer orientação nas escolas, pois os adolescentes têm várias angústias sobre sua sexualidade.
Assim, ao conversar com uma menina bissexual, obesa, parda e independente, cursando um curso superior, antes destinado apenas para as elites brancas, supostamente heterossexuais, conservadora e cristã, notei o quanto o Brasil mudou nos últimos anos.
A classe média branca, heterossexual, conservadora e cristã teve agora que conviver em mesmos espaços com pessoas que antes eram trancadas em armários ou em senzalas. Antes dos anos lulistas que abriram uma fresta para que os excluídos fossem aceitos no baile, era comum e aceito pela grande massa do precariado, que o destino lhes tinham reservado a semi escravidão e a sujeição submissa aos seus patrões. Hoje, os jovens que ascenderam nos últimos anos não aceitarão mais trabalhar como escravos ou se sujeitarem à padrões conservadores impostos unilateralmente pela sociedade. 

A classe média, que se via em seus retratos de família como uma família de comercial de margarina, se viu totalmente assustada ao saber que sua prole estará em contato com o que não é espelho, como muito bem descrito MARIA BITARELLO no artigo do excelente site outraspalavras.net, que transcrevo abaixo:
  

POR 
– ON 01/11/2016CATEGORIAS: BRASILCOMPORTAMENTODESTAQUESSOCIEDADE


Vive de aparências e acha isso chique. E se tudo isso te parece apenas medíocre e inofensivo, não se engane: há garras e dentes. Pois é nela que é feita a engorda do ódio. É ela que legitima atrocidades
Por Maria Bitarello
Há uns anos ouvi um podcast de rádio americana, não me lembro mais qual, em que o entrevistado daquele dia dizia que o fator determinante da pobreza – econômica, não de espírito – é a possibilidade de escolha. O pobre, dizia o entrevistado que também o era, muito mais do que carecer de coisas, pertences, bens, é privado de escolhas, de alternativas. E, salvo as exceções que sempre existem, a vida lhe impõe um caminho, muitas vezes sem bifurcações no percurso. O que o dinheiro compra, portanto, segundo o tal entrevistado, são escolhas. Fiquei pensando sobre isso muito tempo. Claro que se trata de uma dentre tantas formas possíveis de interpretação e que, de certo, é limitada. Mas vamos seguir nessa via, limitada que seja. Porque acho que ela traz insights.
De acordo com esse raciocínio de pobreza, por menor que possa ser minha identificação com essa classe amorfa chamada de média, de fato, é dela que eu vim. Eu cresci num lar de classe média. Tive oportunidades de escolhas. Muitas. Como a de ter uma infância e crescer na hora em que estava pronta pra crescer; a de estudar, o que e onde fazê-lo; as de viajar, trabalhar, aprender línguas, música, esportes, conhecer culturas diferentes, ser exposta à leitura, às artes; a de votar; a de não virar, cedo demais, nem esposa nem mãe; a de me relacionar com quem meu coração eleger; a de mudar de ideia, voltar atrás, andar pra frente, jogar tudo pro alto e começar de novo; a de viver da forma que é verdadeira pra mim. E isso é ouro. Alguns diriam que não tem preço, mas se isso fosse verdade, todos teriam um pouquinho pra si. O que sabemos não ser o caso.
As escolhas às quais tive acesso não estão disponíveis a todos e me foram concedidas, em grandíssima medida, devido à classe social à qual pertenço. Eu as tive porque outra pessoa não as teve. É uma lei básica e pervesa do capitalismo. Ao mesmo tempo, a classe média não é só uma fatia social; é uma cultura também. E uma das características constitutivas dessa classe cultural é o medo. A classe média é apavorada. Tem medo de perder suas regalias disfarçadas de segurança e estabilidade. Ela paralisa sua vida em função desse medo. Segrega. Empurra o diferente pra longe. Vota mal. Não quer pretos nas escolas dos filhos brancos. Nem a boca no fim da rua. Tem medo do flanelinha que cuida dos carros. Da puta. De sair do carro, de andar na rua. Acha que a riqueza máxima será, um dia, se separar do convívio com os pobres.
É uma cultura pobre de espírito. Chata. A ela pertencem a moral e os bons costumes. Vive de aparências e acha isso chique. E se tudo isso te parece apenas medíocre e inofensivo, não se engane: há garras e dentes. Pois é nela, na classe média, que é feita a engorda do ódio. É ela que legitima atrocidades. Movida pelo pavor, a classe média é capaz de qualquer coisa pra manter erguidas as barras que a aprisionam dentro do apartamento, enjaulada; dentro do carro, atrás de vidros blindados; dentro do bairro, onde todos são iguais. A personagem infantil de Pessoas Sublimes, peça que vi há umas semanas n’Os Satyros, em São Paulo, não sai de casa porque lá fora é muito perigoso. E já viu o que faz um bicho em perigo, acuado? Ele morde. Ele ataca.
Essa noção da classe média apavorada não é minha; tomei-a emprestada do documentário A Opinião Pública, do Arnaldo Jabor, lançado em 1967. Vale a pena assistir. Prometo que não tem nada a ver com o Jabor da Globo. É um registro das mudanças sociais pelas quais o Brasil passava na década de 1960. Uma época semelhante à de agora, quando um momento de abertura foi nocauteado por uma tenebrosa onda conservadora. Esse “medo” do qual fala Jabor nasce do que Marcia Tiburi chama de fetiche do igual, outra expressão que tomo emprestada – dessa vez do último romance dela, Uma fuga perfeita é sem volta, que estou acabando de ler. Os adeptos desse fetiche “amam o igual porque, na vida, só o que querem ver é espelho. O espelho que certifica que existem. Onde não há espelho, as pessoas põem ódio”.
O ódio. A força de uma classe média apavorada movida por ele, quando nas mãos da pessoa errada, pode ser monumental. A massa de manobra em que se transforma pode varrer uma sociedade, pode matar. E uma classe média assustada é tudo o que a direita mais aprecia e melhor sabe usar. Ela vai instigar ainda mais esse ódio que vem do medo, que por sua vez vem da não compreensão do diferente. Se a classe média brasileira não for sacudida de seu torpor, temos exemplos históricos palpáveis que mostram para onde esse discurso pode descambar. E a memória precisa ser exercitada, sempre, pra que a história não se repita.
Evitar repetições é o que um paciente encontra na análise. É o que se alcança com uma epifania. Com um momento de iluminação. Perceber essas repetições e fazer o furo, não reproduzi-las mecanicamente, liberta. Porque aí, sim, há escolha. E em tempos de uma classe média que tantas panelas bateu nas janelas – a imagem própria do desespero –, não parece haver escolha, mas mera reprodução. Por isso, em meio a essa embriaguez burguesa (classista, racista, machista, fascista), será preciso muita riqueza de espírito interior pra despertar do transe e exercitar a capacidade de discernimento. Pra perceber as bifurcações no caminho, as opções de desvio que existem, sempre.

Suspeito eu que a maneira de vê-las é olhar pro outro, pro diferente e, ao mesmo tempo, pra dentro – sem medo. Porque, no fundo, é a mesma coisa. Reconhecer o diferente é um ato íntimo. E só daí sairá algo novo.