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terça-feira, 18 de julho de 2017

Record denuncia: delação de Antonio Palocci põe TV Globo na mira da Lava Jato.

Record denuncia: delação de Antonio Palocci põe TV Globo na mira da Lava Jato.


Nada que quem acompanha a mídia alternativa não conheça. Porém é interessante que um grande meio de comunicação, mesmo sendo uma empresa como a Record, do falso profeta Edir Macedo, possa divulgar informações tão importantes para a população.
A reportagem foi feita pelo repórter Luiz Carlos Azenha, que além de repórter da emissora citada, possuiu um dos melhores blogs políticos da atualidade, o www.viomundo.com.br. Segue a reportagem:


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Feudalismo carcerário: guerra contra as facções para encobrir controle social

Feudalismo carcerário: guerra contra as facções para encobrir controle social


A reportagem acima foi ao ar em dezembro de 2013, ANTES do início da matança em Pedrinhas que ganhou o noticiário nacional

por Luiz Carlos Azenha
Nos Estados Unidos há quase um consenso entre conservadores e liberais de que é preciso acabar com o encarceramento em massa. Isso está expresso no notável documentário Emenda 13, da Netflix (e, de forma mais restrita, no documentário Where to Invade Next, do Michael Moore, acima).
Já são mais de 6,5 milhões de pessoas nos presídios estadunidenses. Uma farra para a privataria das cadeias a quem, como em Manaus, interessa prender mais, cada vez mais (havia três vezes mais presos que a capacidade do regime fechado na capital amazonense, a R$ 5.700,00 por preso/mês).
Umanizzare, portanto — o nome da empresa que ganhou a licitação no Amazonas e em Tocantins, sem competidores, por 27 anos, ampliáveis para 35, significa humanizar — é uma piada trágica e grosseira.
A chance de um jovem negro ser encarcerado nos EUA é de 1/3. De um jovem branco, 1/17. Os homens negros representam pouco mais de 6% da população dos Estados Unidos, mas 40% da população carcerária.
A guerra contra os negros e pobres, lançada como “guerra contra as drogas” por Richard Nixon, nos anos 70, foi uma reação à campanha pelos direitos civis.
No Brasil, nem isso houve: o genocídio da juventude negra nas metrópoles é extensão pura e simples do chicote dos 300 anos da escravidão, com as PMs fazendo agora o papel que antes era dos capitães do mato.
Mas, por que nada vai mudar no Brasil, que já tem quase 700 mil presos, 40% deles temporários, ou seja, sem condenação formada?
Porque não interessa. Ou interessa a muito poucos.
As facções praticam uma espécie de feudalismo penitenciário. Ao mesmo em que organizam os presos por direitos básicos, negados pelo Estado criminoso e violador da Constituição, as facções escravizam as famílias dos presos. Pais, tios, irmãos, primos e filhos.
São, portanto, por baixo, 5 milhões de brasileiros sujeitos ao poder delas: contribuem com dinheiro, com serviços ou compram facilidades para os parentes que estão dentro do sistema. Compram comida para que não adoeçam, água, drogas, celulares, roupas… há um gigantesco comércio clandestino nos presídios brasileiros.
E os agentes do Estado? Quando não se calam, por medo, muitos deles são coniventes ou lucram com os esquemas acima citados. Não houve uma única reportagem sobre presídios que eu tenha feito na qual não identifiquei um agente de Estado envolvido nos esquemas que beneficiam as facções.
Fora das cadeias, é óbvio o envolvimento de policiais civis e militares, sem falar de gente de outras esferas, na partilha ou participação nos gigantescos lucros do tráfico e do consumo de drogas.
Finalmente, há as empresas da privataria dos presídios, cujo interesse econômico direto é não só pelo encarceramento em massa, mas pela venda da mão-de-obra quase gratuita dos presidiários e pela venda de serviços aos presos e a suas famílias. São, nesse sentido, competidores de facções como o PCC, que organiza as viagens de familiares a cadeias distantes no estado de São Paulo, por exemplo.
Uma das soluções óbvias para o fim do encarceramento em massa nos EUA é descriminalizar as drogas, o que o mundo civilizado vem abraçando de forma crescente.
No Brasil, o governo que promete esvaziar cadeias é o mesmo que aprofunda a desigualdade social, cortando direitos. E o ministro que comanda o debate quer eliminar os pés da maconha de um continente inteiro à base do facão!
A diferença entre Estados Unidos e Brasil, neste caso específico, é que há uma gigantesca massa de brasileiros desinformados que não quer qualquer solução para os problemas do sistema prisional, mas torce apenas para que os presos se matem nas cadeias e exibam os vídeos nas redes para satisfação do desejo de vingança pessoal.
Tudo indica que as empresas dos Estados Unidos, cujos lucros no ramo agora correm risco, busquem mercados fora de lá — e o Brasil é um destino evidente.

Portanto, aqui, podem esperar: a “guerra contra as facções criminosas” será apenas mais uma faceta de nossa antiga guerra contra os pobres, com remessa de lucros aos estrangeiros que nos venderem “novas tecnologias” de controle social — de câmeras de segurança a tornozeleiras, de pistolas de choque a sistemas de monitoramento à distância.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Ministério da Cultura: Contaminado pela ideologia, Temer decidiu rasgar dinheiro

Ministério da Cultura: Contaminado pela ideologia, Temer decidiu rasgar dinheiro


Publicado originalmente em www.viomundo.com.br
 Quanto menos competição e menos alternativas, mais eles agradecem
por Luiz Carlos Azenha
Foram quase 15 anos de uma direita desinformada, provinciana e antinacional denunciando a Lei Rouanet como a medusa financiadora do esquerdismo e dos, na palavra de um dos ministros recém-escolhidos por Michel Temer, “esquerdopatas”. A lei passou a ser simbólica do Ministério da Cultura.
1. A desinformação começa pelo fato de que a Lei nº 8.313, de 23 de dezembro de 1991, é do governo de Fernando Collor de Mello.
2. Continua quando se lista dentre aqueles que se beneficiaram das isenções fiscais oferecidas por ela, direta ou indiretamente —  conforme descreveu Renato Rovai a partir de um breve levantamento — gente que está longe de ser esquerdista:
O Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC) e a Fundação iFHC captaram um total de mais de R$ 14 milhões para realização de três projetos.
O mais recente, “Fundos Documentais do Acervo Presidente FHC: descrição e difusão”, teve aprovação para captação de mais de R$ 6,2 milhões e realizou captação de R$ 2,2 milhões.
A Fundação Roberto Marinho é um dos maiores captadores da história da Lei Rouanet. Ela teve quarenta projetos propostos pela instituição e realizou captação total de mais de R$ 178 milhões.
Atualmente, a Fundação tem um projeto aprovado para captação: “CAZUZA mostra sua cara – itinerância”, no valor de R$ 2,7 milhões.
Por meio da empresa Moeller & Botelho Produções Artísticas Ltda, o diretor Claudio Botelho, que recentemente brigou com a platéia por atacar Dilma Rousseff num espetáculo em homenagem a Chico Buarque, realizou quatro projetos, num total de mais de R$ 20 milhões aprovados e R$ 8 milhões efetivamente captados.
Claudio Botelho ainda consta na ficha técnica de no mínimo outros 24 projetos incentivados pela Lei Rouanet, somando uma aprovação de quase R$ 74 milhões e captação de quase R$ 45 milhões.
Atualmente, há três projetos da Moeller & Botelho Produções Artísticas Ltda aprovados para captação, somando autorização de mais de R$ 16 milhões.
O Jota Quest, outro grupo que adora atacar o governo e a presidenta da República, está envolvido em sete projetos apresentados à Rouanet. “No Estúdio com o Jota Quest” realizou captação de R$ 1,4 milhão. E o “Turnê Jota Quest 20 anos”, de mais de R$ 3 milhões, está em processo de análise.
O ator Marcelo Serrado, militante pró-impeachment, está envolvido em três projetos apresentados à Rouanet. “É o que temos pra hoje!” realizou captação de R$ 478 mil. “Vilões de Shakespeare” está autorizado a captar quase R$ 800 mil.
Juliana Paes, outra militante anti-governo, vai estrelar o espetáculo “Garota de Ipanema, O Musical”, da Aventura Entretenimento Ltda., que captou R$ 6,4 milhões.
Susana Vieira está na ficha técnica do projeto “Looped”, da Escola de Atores Wolf Maya Ltda, autorizado a captar R$ 890 mil.
Marcio Garcia está na ficha técnica do projeto “Audiolivro Narizinho Arrebitado, de Monteiro Lobato”, autorizado a captar R$ 740 mil.
3. A ignorância prossegue quando os neoliberais tardios demonstram profundo desconhecimento sobre a imbricação entre Estado e cultura no mundo.
Eles não sabem, por exemplo, como surgiu o domínio dos Estados Unidos no cinema. Stuart Klawans, no New York Times, resumiu: “Os grandes ganhadores da Primeira Guerra no cinema, como em tudo o mais, foram os Estados Unidos. Entre os combatentes, emergiram como a única sociedade com a economia intacta. Uma consequência imediata foi o domínio de Hollywood sobre as telas de todo o mundo. Conquistou os mercados dos quais a França foi obrigada a se retirar; contratou o talento — ou ofereceu refúgio — aos melhores da UFA [o estúdio alemão]. Quando você ouve executivos dizerem que Hollywood foi bem sucedida porque dá ao povo o que ele quer, talvez deva pensar nos nomes: Ypres, Verdun, Passchendaele”.  São campos de batalha da guerra.
Isso significa que bem cedo os estúdios de Hollywood atingiram a escala necessária para não depender de injeção direta de dinheiro público, mas nunca abriram mão de imensos favores legislativos em Washington.
É de arrepiar os neoliberais tacanhos, mas aconteceu: o Estado norte-americano interferiu diretamente na produção de conteúdo de Hollywood durante a Segunda Guerra Mundial, criando o Office of War Information — Bureau of Motion Pictures (BMP). Além de trabalhar com a indústria na definição de roteiros, o BMP fazia uma espécie de censura prévia nos filmes que seriam rodados, para adequá-los às necessidades da propaganda oficial.
Isso destrói completamente o sonho dos liberais brasileiros de que Hollywood se desenvolveu às custas da mão invisível do mercado.
Até hoje, quando não deveria precisar mais disso, a indústria do cinema recebe subsídios nos Estados Unidos através de isenção fiscal!
Aqui não falo de ouvir dizer, mas de ter testemunhado pessoalmente enquanto vivia lá: deflagrou-se uma guerra fiscal dos estados para atrair produções de TV e de cinema através do que é conhecido como Motion Picture Incentives.
Exemplos: Arkansas devolvia 100% dos impostos cobrados na compra de propriedade e serviços a quem investisse mais de U$ 1 milhão no estado num período de um ano; Utah dava isenção de impostos na compra, leasing ou aluguel de maquinaria ou equipamento usado na produção de cinema; o Tennessee devolvia até 500 mil dólares em impostos nas compras locais de bens e serviços. Quase todos os estados norte-americanos dispõem de incentivos para a indústria da TV e do cinema.
Isso é interferência estatal direta!
Mas, qual a lógica de fazer isso, se a indústria já é riquíssima e os estados precisam arrecadar para cobrir outros gastos em tempos de crise?
É a lógica capitalista que os supostos capitalistas brasileiros, entorpecidos pela ideologia, parecem desconhecer: criar uma indústria regional de cinema e TV gera empregos, desenvolve talentos, preserva e promove a cultura local. Hollywood agradece: com a queda dos custos de produção, pode ocupar o mercado mundial com o seu tradicional dumping.
Se uma emissora de TV da África do Sul ou do Brasil quer comprar aquela megaprodução específica, leva junto um pacote de filmes B, muitos dos quais produzidos com baixo custo em locações que oferecem vantagens econômicas.
Regionalizar a produção cultural, torná-la representativa de nossa diversidade, criar novas oportunidades de emprego e negócios — foi a mesma lógica que orientou algumas das ações do Ministério da Cultura nos governos Lula e Dilma.
No Brasil, hoje, só a TV Globo e a TV Record são capazes de acumular capital próprio para gerar conteúdo competitivo no mercado internacional.
É por isso que não faz sentido desmantelar o Ministério da Cultura justamente na era digital, quando a indústria de entretenimento ganha escala planetária e o Brasil tem potencial imenso, especialmente na música, no cinema e nas manifestações culturais associadas ao Turismo.
Ah, sim, sabe qual o outro motivo para justificar a isenção fiscal dada aos produtores de vídeo e cinema nos Estados Unidos?
Mesmo que indiretamente, os incentivos acabam promovendo o Turismo!
O filme rodado em Baton Rouge é uma poderosa forma de propaganda do estado da Louisiana, como qualquer pessoa pode constatar quando tenta associar bairros de Nova York, Paris, Roma ou Rio de Janeiro a imagens que viu nas salas de cinema, na HBO ou no Netflix.
Aqui, nos resumimos a tratar de Cultura do ponto-de-vista simplório dos coxinhas, obcecados pelo retorno financeiro imediato.
Não é mentirosa a informação que está circulando nas redes sociais: um estudo do governo francês constatou que as atividades culturais geraram 3,2% do PIB do país em 2013, sete vezes mais que a indústria automobilística.
Do ponto-de-vista do capitalismo, Entretenimento e Turismo são indústrias que hoje experimentam crescimento explosivo. Reduzir a capacidade de formulação de políticas públicas no setor, logo agora, é desastroso.
Detonar o Ministério da Cultura não demonstra apenas provincianismo, falta de visão e preconceito ideológico contra supostos “esquerdopatas”, como Fernando Henrique Cardoso, a Fundação Roberto Marinho e Juliana Paes.
Significa que Michel Temer pretende rasgar dinheiro.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

“Recato” de Marcela, descrito por Veja, não é por acaso; mudez será necessária à retirada de direitos das mulheres por Michel Temer

“Recato” de Marcela, descrito por Veja, não é por acaso; mudez será necessária à retirada de direitos das mulheres por Michel Temer

por Luiz Carlos Azenha (www.viomundo.com.br)
O Brasil tem 100 milhões de mulheres. As militantes políticas são minoria e se concentram nas grandes metrópoles.
A imensa maioria ainda está “em disputa” entre os que pregam a derrubada de Dilma Rousseff e os que entendem que a eleição dela foi uma grande conquista de todas as brasileiras.
É preciso contextualizar.
Em 2010, o então presidente Lula pretendia fazer o sucessor. Na ordem “natural” de uma sociedade machista, conservadora e hierarquizada, uma mulher poderia enfrentar resistência em certas camadas do eleitorado, o que resultou no marketing bizarro segundo o qual o Pai Lula transferiria o poder à Mãe Dilma.
Foi o jeito que os marqueteiros petistas encontraram de atravessar o imenso fosso cultural que separa o Brasil metropolitano — onde as mulheres trabalham fora e são economicamente independentes — dos interiores, onde as mulheres trabalham muitíssimo, em casa ou fora, mas ainda vige fortíssima a ideia do todo-poderoso “pai de família”, ou “homem de bem”.
Mãe Dilma não tinha nada de ameaçadora. Seria apenas a continuidade de Lula, como zeladora da família.
Para os conservadores, melhor assim que apresentá-la como a guerrilheira que trocou de marido na clandestinidade, uma autonomia chocante para os padrões brasileiros de recato feminino.
De militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) à Mãe do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, assim operou o marketing petista.

Recebi a indicação dos vídeos que reproduzo acima.
São resultantes do debate que se instalou desde que a revista Veja definiu a futura primeira dama Marcela — ainda que por apenas 180 dias, se o Senado aceitar por maioria simples a abertura de processo contra Dilma — como “bela, recatada e do lar”.
Fabiana Bertotti diz que provavelmente não haveria tantas críticas se fossem outros os adjetivos atribuídos a Marcela Temer. Sustenta que é direito de uma mulher ser recatada e do lar. Faltou acrescentar que, sim, desde que esta seja uma escolha da mulher, não um papel socialmente definido por homens.
Tanto ela quanto Marcia Tiburi contextualizam o significado da reportagem na atual conjuntura política, mas de forma insuficiente.
RECATO
Marcela não é apenas utilizada por Veja como um aparato para vender um vice insosso ao mercado. Ela é sutilmente apresentada como a anti-Dilma.
Marcela é a advogada que nunca exerceu a profissão, expressão no imaginário popular — o que não é necessariamente verdade no caso dela — da mulher que se preparou para casar e que reconhece o papel de subordinação ao marido.
Já Estela, trocou Lobato por Max na clandestinidade!
Estela (Dilma) teve de fugir às pressas de Belo Horizonte, desfazendo na prática o casamento com Lobato (Cláudio Galeno de Magalhães Linhares). Apaixonou-se por Max, Carlos Franklin Paixão Araújo, com quem teve a filha Paula.
Ou seja, Dilma exercia sua plena autonomia afetiva e sexual como mulher já nos anos 70.
BELEZA
A Marcela de Veja restaura em parcela significativa do eleitorado a “esperança” de que a mulher voltará a cumprir o papel de confirmar a vitalidade do governante.
Diferentemente de Ruth Cardoso e Marisa Lula da Silva durante o governo de seus maridos, Marcela é a jovem fértil que, segundo a reportagem, “tem o sonho de dar a Temer uma filha”.
Esta subordinação física da mulher a um “bem maior”, mesmo que indesejada pelo casal Temer, é o sonho de milhões de “homens de bem”.
Dilma assumiu a Presidência da República desfilando com a filha Paula, sem um falo aparente ao lado, como definiu uma professora de Minas Gerais que destaca o papel do machismo no golpe em andamento.
MARCELA, A RESTAURADORA
Ainda que Marcela não deseje este papel, é nele que a sociedade machista pretende enquadrá-la: restauradora do papel subordinado da mulher.
Veja foi apenas o veículo do “recado”.
Não é um fenômeno novo, nem que se restrinja ao Brasil: a reação dos homens à repentina mobilidade social, autonomia física e protagonismo social das mulheres é apontada como um dos motivos para a onda de estupros na Índia, país que passou por intensa migração do campo para a cidade.
O fenômeno mexeu tão repentinamente com o papel social das mulheres — que tiveram acesso a trabalho e educação fora do controle de pais, maridos e parentes  — que a falocracia tentou restaurar a ordem com violência sexual. É uma tese que merece ser estudada.
No Brasil, houve uma revolução silenciosa desde o fim da ditadura.
Lula e depois Dilma entregaram os cartões do Bolsa Família às mulheres da casa, assim como priorizaram as mulheres na entrega dos títulos de propriedade dos imóveis do Minha Casa, Minha Vida.
As mudanças não devem ser creditadas a eles: resultaram do acúmulo de forças da atuação política das mulheres antes, durante e depois da ditadura militar, com direitos inscritos na Constituição de 1988.
Ainda assim, o Brasil mudou muito menos do que deveria: a representação feminina no Parlamento, de pouco mais de 10%, é muito inferior inclusive a de paises que os brasileiros, logo eles, consideram “machistas”.
Registre-se que na votação da abertura do processo de impeachment, o “sim” não obteve os dois terços necessários entre as deputadas: foi 29 a 20, com uma ausência e uma abstenção.
Diante das estatísticas acima, a falta de protagonismo de Marcela, traduzida como “recato”, é talvez o aspecto mais significativo da reportagem de Veja: ela será a primeira-dama que pode até influir nos bastidores, mas sem a voz pública, autônoma, capaz de convocar outras mulheres à mudança social.
Num período em que se antevê a adoção de políticas econômicas e sociais regressivas pelo marido, não é por acaso que Marcela foi apresentada como “potencialmente grávida”, preocupada com o lar e o bem estar acima de tudo da própria família.
Assim, ela poderá apenas assistir quando o marido “for obrigado”, em nome dos “homens de bem”, a mexer com os aumentos do salário mínimo, elevar a idade da aposentadoria e manipular programas sociais para retirar direitos. Tudo isso afetará enormemente as mulheres.
Para Veja — e os que querem substituir Dilma por Temer — faz sentido reduzir Marcela à mudez de quem se preocupa apenas com a próxima consulta no dermatologista.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Paulo Pimenta: Globo blinda anunciantes de cerveja e não “vê” relação entre consumo de álcool e mortes no trânsito

Paulo Pimenta: Globo blinda anunciantes de cerveja e não “vê” relação entre consumo de álcool e mortes no trânsito

Publicado no www.viomundo.com.br
O Globo blinda e “brinda” seus anunciantes de cerveja em matéria que não “vê” relação entre consumo de álcool e mortes no trânsito
por Paulo Pimenta

A proximidade com o carnaval e a dependência econômica que a mídia tem da publicidade de cerveja levaram o jornalO Globo a isentar, desde agora, a combinação bebida e direção como uma das causas da violência no trânsito.
Em matéria deste domingo (3), o jornal “analisa” a ocorrência dos acidentes em rodovias federais e aponta suas causas. O Globo “não viu”, em nenhum momento, o consumo de bebidas alcoólicas com um fator preponderante para as vítimas das estradas.
Para dar suposta credibilidade àquilo que O Globo quer esconder, ou não pode dizer  – a relação entre álcool e acidentes com veículos – um especialista em segurança de trânsito surge no texto para sentenciar que o “despreparo dos motoristas”, a “falta de manutenção dos veículos” e a “péssima qualidade das vias” é que são os responsáveis pelas colisões nas estradas. Nenhuma referência sobre álcool e direção, apesar de constar claramente no site da Polícia Rodoviária Federal que, nas operações de fiscalização de final de ano que terminam só depois do carnaval, a “embriaguez ao volante” é uma das “principais atitudes dos condutores que acarretam acidentes graves”.
No ano passado, a Revista Época, do grupo Globo,  revelou que a Ambev ocupava o sexto lugar entre as dez empresas que mais investiram em publicidade no primeiro semestre de 2015 no país.
Não fosse pelas razões óbvias e conhecidas, seria de se estranhar o fato de uma matéria que dedicou uma página inteira sobre acidentes em rodovias não ter ouvido nenhum especialista na área da saúde, por exemplo.
Até porque, se ouvisse, saberia que a Organização Mundial da Saúde aprovou, em texto assinado por 193 países no ano de 2010, a restrição da publicidade de cerveja como uma solução estratégica à diminuição da violência no trânsito. Dados da OMS afirmam que o álcool é o agente causador de 4% das mortes do mundo, vitimando mais do que doenças como AIDS e Tuberculose. O público jovem, especialmente do sexo masculino, representa a maior parte das vítimas.
Em outro estudo, a OMS verificou que países desenvolvidos que acabaram com a propaganda de álcool reduziram o consumo em 16% e tiveram 23% menos mortes no trânsito que os países onde não há restrições à propaganda, como o Brasil.
Aqui, o Conar, espécie de autorregulação da propaganda, é conivente com os recorrentes desrespeitos da publicidade de cerveja ao seu próprio código. Para modificar essa situação, em 2011 apresentei projeto de lei 701/11 que estabelece restrições à publicidade de cerveja, como sugere a OMS. Mas, o  Congresso Nacional não teve ainda a coragem necessária para enfrentar o “lobby” dos três setores que impedem a aprovação de uma legislação sobre esse tema no Brasil: a indústria de cerveja, as agências de publicidade e a mídia.
Há alguns anos,  o professor Braz de Lima, do Programa de Álcool e Drogas da UFRJ, estimou que o álcool está presente em 75% dos acidentes de trânsito que ocorrem no país.
Em 1996, o Congresso Nacional aprovou a restrição de publicidades ao cigarro. Nesses 20 anos, o número de fumantes no Brasil, que entre a década de 80 e 90 era de aproximadamente 30%, hoje apresenta índice de 10,8%, segundo o Ministério da Saúde. Isso fez do Brasil um dos países que mais reduziram o número de fumantes no mundo nos últimos anos.
Como se sabe, o carnaval é o período em que os segmentos de bebidas mais lucram, quando milhões e milhões de litros de cerveja são consumidos, e que também muito investem em publicidade.
O aumento do consumo de álcool nessa época faz com que esse seja o período, apontado pela Polícia Rodoviária Federal, como o mais crítico em termos de acidentes em rodovias federais.
Mas O Globo não “descobriu” nada disso. Nem poderia, já que a matéria foi construída para blindar – ou brindar ? – seu próprios anunciantes de qualquer responsabilidade sobre os acidentes e mortes no trânsito que ocorrerão durante o carnaval.
Paulo Pimenta é jornalista e deputado federal pelo PT-RS

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

PSDB acusou governo federal de fazer o que o PSDB fez: matar CPI depois de propina de R$ 10 milhões a presidente do partido Sergio Guerra

"As informações acima não diminuem ou pretendem diminuir a responsabilidade de integrantes do PT e de todos os outros partidos envolvidos no Petrolão: PMDB, PP, PSB e outros.
Porém, servem para demonstrar que o Petrolão floresceu num período em que, tendo a oportunidade de fazê-lo, o PSDB não fortaleceu as instituições que poderiam desmontá-lo no nascedouro. Pelo contrário, os dois mandatos de FHC ficaram famosos pela atuação do engavetador-geral da República. O presidente se ocupava de coisas mais importantes, como vender por U$ 3 bilhões uma empresa que valia U$ 100 bi, noutro escândalo, aquele sim, jamais investigado".

do www.viomundo.com.br

PSDB acusou governo federal de fazer o que o PSDB fez: matar CPI depois de propina de R$ 10 milhões a presidente do partido Sergio Guerra

publicado em 22 de dezembro de 2015 às 03:27
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Da Redação
O acúmulo de informações sobre a Operação Lava Jato deixa claro: o Petrolão começou no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Diz ele que era, então, um esquema “desorganizado”. Ou seja, a corrupção do PSDB é mais “vadia” que a do PT/PMDB/PP/PSB e outros, parece sugerir o sociólogo.
É exatamente a mesma lógica utilizada para justificar como legais doações feitas pelas empreiteiras envolvidas na Lava Jato a Aécio Neves em 2014, quando aquelas que abasteceram os cofres de Dilma teriam sido “criminosas”.
“Mas, não tínhamos o que dar em troca, já que não controlávamos o Planalto”, argumentam os tucanos.
Porém, e os contratos fechados pelas mesmas empreiteiras com os governos paulistas? E os fechados com os governos de Aécio Neves e Antonio Anastasia em Minas? Não poderia ter se dado aí o quid-pro-quo?
A lógica do PSDB, endossada pela mídia, deu certo no mensalão: embora os tucanos tenham amamentado Marcos Valério no berço, com dinheiro público de empresas estatais como Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), Comig — hoje Codemig, Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais — e o extinto Bemge, o banco estadual mineiro, ninguém foi preso; o ex-presidente nacional do PSDB e senador Eduardo Azeredo foi condenado em primeira instância a 20 anos de prisão (leia íntegra da sentença aqui), depois de 17 anos! Dificilmente passará um dia na cadeia, já que em 2018 completa 70 anos.
Enquanto isso, o mensalão petista deu no que deu, apesar da controvérsia sobre se o dinheiro da Visanet, afinal, era ou não público.
Vejamos quais são os fatos que localizam o berço do Petrolão no quintal de FHC:
1. Delcídio do Amaral, ex-líder do governo Dilma no Senado, hoje preso, assinou ficha de filiação no PSDB em 1998 e foi diretor de Gás e Energia da Petrobrás em 2000 e 2001, no segundo mandato de FHC, quando conheceu Nelson Cerveró e Paulo Roberto Costa, que agora se tornaram delatores. Os negócios entre eles começaram então.
2. As usinas termelétricas construídas às pressas na época do apagão elétrico — o verdadeiro, não aquele que a Globo prevê desde o governo Lula –, durante o governo FHC, deram prejuízo à Petrobrás superior àquele atribuído à compra e venda da refinaria de Pasadena, no governo Dilma, segundo calculou a Folha de S. Paulo. Mas, vejam que interessante: a Folha apresenta o senador como sendo do PT quando, à época dos negócios denunciados, ele tinha ficha de filiação assinada no PSDB e servia ao governo FHC.
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3. Delcídio é acusado de ter recebido R$ 10 milhões em propina da Alstom neste período. A Alstom foi operadora do trensalão tucano em São Paulo, que atravessou os governos Covas, Alckmin, Serra e Alckmin com uma velocidade superior àquela com que se constrói o metrô paulistano.
4. A Operação Sangue Negro, deflagrada pela Polícia Federal, refere-se a um esquema envolvendo a empresa holandesa SBM, que operou de 1998 a 2012, envolvendo pagamentos de U$ 46 milhões. Em 1998, registre-se, FHC foi reeleito para um segundo mandato.
5. Em delação premiada, o ex-gerente da Petrobras, Pedro Barusco, disse que coletou um total de R$ 100 milhões em propinas desde 1996. Portanto, desde a metade do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. Barusco, se contou a verdade, atuou no propinoduto durante seis longos anos sob governo tucano. Por que Lula e Dilma deveriam saber de tudo e FHC não?
6. Outro delator, Fernando Baiano, disse que seus negócios com a Petrobrás começaram em 2000, na metade do segundo mandato de FHC.
O curioso é que, em março de 2014, o PSDB acusou o PT, em nota no seu site, de ter tentado bloquear investigações sobre a Petrobrás.
Desde 2009, o PSDB no Senado solicita investigações sobre denúncias de irregularidades e na direção oposta, o esforço para aprovar a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a estatal petroleira foi derrubada pelo governo federal no mesmo ano. […] Em 15 de maio de 2009, o senador Alvaro Dias (PSDB-PR) protocolou um pedido de abertura da comissão, assinado por 32 colegas de diversos partidos, incluindo até mesmo alguns de legendas que apoiam o governo. O requerimento pedia a investigação a fraudes que já haviam sido motivo de trabalhos na Polícia Federal, Tribunal de Contas da União e Ministério Público federal. 
Na justificativa, o tucano argumentou que havia indícios de fraudes em construção e reforma de plataformas de petróleo – em especial relacionadas a grandes superfaturamentos – e desvios de verbas de royalties da exploração do petróleo, sonegação de impostos, mal uso de verbas de patrocínio e fraudes em diversos acordos e pagamentos na Agência Nacional de Petróleo. No entanto, o governo operou internamente com sua base para engavetar o pedido de CPI. Mas o PSDB apresentou requerimentos relacionados à Petrobras, no esforço de buscar respostas às denúncias.
Porém, mais tarde soubemos que foi o ex-presidente do PSDB e ex-senador Sergio Guerra, já falecido, quem teria recebido R$ 10 milhões para enterrar a CPI, segundo o delator Paulo Roberto Costa.
O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa afirmou em sua delação premiada que o então presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra – morto em março deste ano –, o procurou e cobrou R$ 10 milhões para que a Comissão Parlamentar de Inquérito da Petrobrás, aberta em julho de 2009 no Senado, fosse encerrada. Segundo Costa, o tucano disse a ele que o dinheiro seria usado para a campanha de 2010. Aos investigadores da Operação Lava Jato, Costa afirmou que os R$ 10 milhões foram pagos em 2010 a Guerra. O pagamento teria ocorrido depois que a CPI da Petrobrás foi encerrada sem punições, em 18 de dezembro de 2009. O senador era um dos 11 membros da comissão – três integrantes eram da oposição e acusaram o governo de impedir as apurações. 
A extorsão, segundo Costa, foi para abafar as descobertas de irregularidades nas obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco – alvo do esquema que levou ao banco dos réus o ex-diretor da estatal e o doleiro Alberto Youssef. A obra era um dos sete alvos suspeitos na Petrobrás que justificaram a abertura da comissão, em julho. […] O ex-diretor declarou que o então presidente do PSDB estava acompanhado do deputado federal Eduardo da Fonte (PP-PE), a quem chamou em seu relato de “operador” […] O delator afirmou que Guerra relatou a ele que o dinheiro abasteceria as campanhas do PSDB em 2010. Naquele ano, o presidente do partido foi o coordenador oficial da campanha presidencial do candidato José Serra. Integrantes da campanha informaram que o ex-senador não fez parte do comitê financeiro.
Vejam vocês que os tucanos denunciados são graúdos: dois senadores e ex-presidentes do partido, Eduardo Azeredo e Sergio Guerra. Não é, portanto, coisa da arraia miúda do PSDB.
No caso de Guerra, supostamente atuou com um operador de outro partido, demonstrando que o Petrolão obedecia a linhas partidárias tanto quanto aquela famosa foto de Delcídio (PT) com Romário (PSB), Eduardo Paes, Pedro Paulo e Ricardo Ferraço (PMDB) celebrando uma “aliança partidária”.
Nosso ponto é que o mensalão, assim como o trensalão e o petrolão, são suprapartidários e expressam a destruição do sistema político brasileiro pelo financiamento privado, aquele que transformou o presidente da Câmara Eduardo Cunha num traficante de emendas parlamentares escritas pela OAS e apresentadas por gente como Sandro Mabel (PMDB) e Francisco Dornelles (PP).
Se é certo que o PT age igualzinho aos outros partidos, também o é que o PSDB não paira ao lado do DEM no panteão da moralidade, né Agripino?
As informações acima não diminuem ou pretendem diminuir a responsabilidade de integrantes do PT e de todos os outros partidos envolvidos no Petrolão: PMDB, PP, PSB e outros.
Porém, servem para demonstrar que o Petrolão floresceu num período em que, tendo a oportunidade de fazê-lo, o PSDB não fortaleceu as instituições que poderiam desmontá-lo no nascedouro. Pelo contrário, os dois mandatos de FHC ficaram famosos pela atuação do engavetador-geral da República. O presidente se ocupava de coisas mais importantes, como vender por U$ 3 bilhões uma empresa que valia U$ 100 bi, noutro escândalo, aquele sim, jamais investigado.

PS do Viomundo: Quais campanhas foram irrigadas pelos R$ 10 mi do Guerra? Existe punição no Congresso por obstruir investigações às custas de dinheiro sujo?